A simplicidade de um cenário complexo

O governo federal lida com os problemas de uma maneira polarizada, faz política elegendo adversários, numa infinita e insana disputa do bem contra o mal.


O governo federal lida com os problemas de uma maneira polarizada, faz política elegendo adversários, numa infinita e insana disputa do bem contra o mal. Na complexidade do problema gerado pelo novo coronavírus é infrutífero simplificar os cenários e vender para a população que há uma saída mais fácil.


Está provado pela experiência mundial que não há. Os efeitos da covid-19 na Espanha, Itália e agora nos Estados Unidos mostram que a doença não é uma mera gripe ou um resfriadinho. Muito pelo contrário. Especialistas em pandemia trabalhando nos hospitais italianos dizem que ela só não é pior do que o vírus do ebola.


Classificar essa doença de um jeito simplório não contribui para informar da melhor maneira possível a população. Criar ruídos, desavenças, insistir no nós contra eles não vai adiantar. Não vai combater a disseminação do vírus, não vai reativar a economia, não vai preservar empregos ou a renda dos brasileiros.


O que é preciso é um planejamento claro e transparente com fases mais restritivas e um plano para que o confinamento e distanciamento social sejam aos poucos e gradativamente eliminados porque a vida precisa voltar ao normal.


Mas como implementar esse procedimento em uma cidade como São Paulo, que tem o protagonismo econômico e político no Brasil, ao mesmo tempo em que convive com contradições gigantescas entre a riqueza e a pobreza.


Nossa capital é abundante em inovação, capital humano e recursos financeiros — e concentra 7,3 mil habitantes por m² na maior cidade do Hemisfério Sul, sendo o ninho perfeito para a disseminação de um vírus com altíssima capacidade de transmissão.


Nessa megalópole, são 2 milhões de pessoas vivendo em favelas, sofrendo pela enorme vulnerabilidade econômica, carregando décadas de descaso com saneamento e saúde precários. O fato é que casas pequenas e mal ventiladas onde vivem várias pessoas são o foco perfeito para o contágio que, por sua vez, não poderá receber o devido apoio nas já escassas unidades de saúde. Impedidos de trabalhar pela quarentena, irão acumular contas e necessidades básicas de comida e limpeza. Trata-se de uma tragédia anunciada sob os nossos olhos.


Comunicar o plano de combate à disseminação da doença e da retomada da economia deve ser tratado com prioridade. Não podemos acelerar a implementação de nenhuma das fases sob risco de acontecer o que houve na Itália que relaxou as medidas de restrição para proteger a economia e foi obrigada a endurecer ainda mais o confinamento diante da disparada dos casos, das mortes e da explosão do sistema de saúde.


São Paulo não pode e não tem a flexibilidade para testes ou para viver em um ambiente de experimentos. Temos vidas a zelar seja de doentes seja da pobreza desencadeada pela derrocada econômica.


Nesse ambiente de falta de lucidez, aqui na nossa cidade há uma força de quem não quer esperar. Empresários, pesquisadores, líderes comunitários e muitas mentes brilhantes começaram a trocar ideias de soluções, conexões e saídas para encontrar saídas à irracionalidade. No WhatsApp, a mesma ferramenta que espalhou tantas notícias falsas, despertou uma corrente decidida a fazer o bem.


Identificou-se a necessidade de direcionar as tantas doações para as famílias já sufocadas pela crise, criando uma ponte entre quem pode ajudar e quem precisa de assistência. O ritmo frenético de mensagens virou madrugadas, se separou em núcleos – saúde, social, economia, tecnologia e comunicação – e, em tempo recorde, construiu uma causa maior movida pela solidariedade.


Na mesma cidade onde o coronavírus começou no País, vimos também surgir a esperança de que temos a capacidade e a força para sermos uma sociedade melhor. Uma sociedade em que a população é maior do que a soma das ambições de cada um, em que o coletivo se sobrepõe ao individual, em que estejamos todos no mesmo barco mesmo vindos de navios diferentes.


O problema é global e a solução está no cuidado com o próximo. Adotar tons jocosos, ir para a disputa política, simplificar a complexidade e partir para o ataque não vai nos salvar. A irresponsabilidade tem limite e custa vidas.


Leia também esse artigo no Estadão.


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